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Infância sem direitos: dá para ser criança de barriga vazia?

Mães solteiras relatam sofrimento ao verem filhos pedirem comida; impactos da pobreza e da fome são mais graves entre pobres e negros

Ana Carolina Modesto, Igor Matos, Marcos Torres, Mayara Dias, Mayra Castro e Thayssa Rios, do Jornalismo UFF para o #Colabora
#INFÂNCIA29 de ago. de 2312 min de leitura
Criança se alimenta com doação da ONG União Solidária, em Niterói: fome, desnutrição e pobreza na infância brasileira. Foto: Thayssa Rios
Ana Carolina Modesto, Igor Matos, Marcos Torres, Mayara Dias, Mayra Castro e Thayssa Rios, do Jornalismo UFF para o #Colabora29 de ago. de 2312 min de leitura

“Dói muito quando meu filho acorda e fala ‘mãe, tô com fome’ e não tem nada pra comer”, diz Tayara Maciel, de 21 anos. Mãe solteira de dois filhos, ela sintetiza em uma frase a dura realidade de milhões de famílias brasileiras. As crianças representam o grupo etário da população mais pobre no país, como revelam os dados da Síntese dos Indicadores Sociais 2022, do IBGE. Em uma fase da vida em que a única preocupação deveria ser brincar, as crianças também são as que mais sofrem com a desnutrição no Brasil. Especialistas ressaltam ainda que a situação dos pequenos se agrava quando observadas raça e faixa de renda.

De acordo com a pesquisa, entre as crianças brasileiras de até 14 anos, 13,4% são extremamente pobres (com renda per capita de menos de 1,9 dólar por dia) e 46,2% são pobres (com renda per capita menor que 5,5 dólares por dia). Uma das grandes consequências dessa pobreza é a desnutrição. Em 2020, ela atingia 4,3% da população nessa faixa etária e 13% das crianças de até 5 anos, segundo dados do último relatório do Cenário da Infância e Adolescência no Brasil (Abrinq).

Tayara Maciel hoje já consegue driblar a falta de alimentos. Ela acorda todos os dias antes das cinco para pegar comida na xepa – sobra dos alimentos em feiras e supermercados – e alimentar seus dois filhos, que têm 2 e 4 anos. Mãe solteira e desempregada, ela também corre atrás de um enxoval para a filha que está gestando há cinco meses. Ela garante que não deixa faltar comida nem água em casa e relata os desafios que passa diariamente para garantir que as crianças não passem fome. “Alimentação, graças a Deus, não falta. Deus me livre. Acontecia isso quando eu morava no (morro do) Estado. Aprendi a correr atrás de xepa, catar latinha. Eu vou à xepa todo dia de manhã. Chego em casa, lavo tudo e dou pra eles”, conta.

Tayara conta que, quando já tinha o primeiro filho e estava grávida do segundo, morava em uma casa de madeira no Morro do Estado, em Niterói, época em que passava ainda mais dificuldades. Hoje em dia, ela consegue os alimentos em um supermercado, no centro de Niterói, acordando antes do sol nascer para alcançar o caminhão que descarrega os produtos diariamente, às 5 h. Os alimentos amassados ou em embalagens danificadas são distribuídos gratuitamente à população que vai até o local. “Eu acordo, deixo eles na casa da avó e vou. Mas cato latinha também, porque nem sempre na xepa tem leite, iogurte. Hoje, por exemplo, não teve iogurte, só fruta”, diz a jovem, acrescentando que também consegue alimentos como arroz e feijão na cesta básica entregue por uma igreja.

Moradora da Vila do 27, na região de São Domingos, em Niterói, Região Metropolitana do Rio, Tayara costumava receber bolsa-família, mas foi furtada e perdeu o cartão há dois meses. Atualmente, ela recebe o benefício Arariboia, distribuído pela prefeitura de Niterói. O valor é usado para pagar seu aluguel e a conta de luz. Já a água encanada não é uma realidade na vila onde mora. “Aqui não tem água, a gente carrega lá debaixo. Todo dia encho e carrego três galões d’água. Todo dia. Pra beber, tomar banho”, diz Tayara. “Mas aqui o aluguel é barato. Eu pago R$ 150 reais de aluguel e R$ 100 de luz. Melhor do que ficar na rua”, acrescenta.

Outro momento que já faz parte da rotina da jovem é a entrega de alimentos e doações do Projeto União Solidária, que acontece todas às quartas-feiras, por volta das 19h30m. Criada pelo assistente administrativo Eduardo Santos, a ONG surgiu no início da pandemia, quando ele se juntou com alguns amigos que se organizavam para distribuir cachorros-quentes e alguns produtos de higiene às pessoas em situação de vulnerabilidade. O projeto foi crescendo, mais pessoas se tornaram voluntárias e doadoras, e hoje já entrega mais de 100 quentinhas, kits de higiene, roupas e cobertores para pessoas em situação de rua ou pobreza em pontos estratégicos de Niterói.

Enquanto nossa equipe conversava com Tayara, quem ficou cuidando de seus filhos foi Melissa Silva, estudante de Jornalismo que faz parte do União Solidária há um ano e meio. Nesse período, ela viu um padrão se repetir: as mães solo. “E aí eu fui percebendo como era difícil a realidade dessas mães porque elas chegam aqui muitas vezes com mais de duas crianças, que demandam muita atenção porque são pequenas. E são mães que, ao mesmo tempo que querem se alimentar e alimentar as crianças, ainda querem aproveitar pra pegar alguma roupa, alguma coisa”, relata a estudante.

Melissa diz que o projeto, além de entregar alimentos, também busca oferecer assistência, o que considera essencial para mães solo. “Meu contato com as crianças veio de pensar que eu não preciso só estar servindo comida para ajudar. Eu posso simplesmente dar atenção para as crianças para a mãe poder ter um pouco de descanso, conseguir comer e aproveitar essa sociabilidade que o projeto propõe”, observa ela. “Pode ser que em casa elas não tenham ninguém para ajudar”, comenta Melissa.

Menina na fila para receber doação de alimentos: crianças negras são as mais atingidas pela desnutrição (Foto: ONG União Solidária / Facebook)
Menina na fila para receber doação de alimentos: crianças negras são as mais atingidas pela desnutrição. Foto: ONG União Solidária / Facebook

Um olhar para a desigualdade

Outra característica em comum entre Tayara, seus filhos e boa parte das outras mães e crianças atendidas pelo projeto é que são pessoas negras. Dados do IBGE revelam que 8,5% de meninos negros e 8,2% das meninas negras sofrem com a desnutrição. Enquanto isso, crianças brancas tiveram aumento de sobrepeso, revelando a desigualdade social persistente no país. Em 2021, 40,4% dos meninos brancos de 5 a 9 anos estavam com excesso de peso. Entre as meninas brancas, o índice foi parecido: 36,4%.

Embora os dados reforcem a inequidade monetária entre crianças negras e brancas, é bom ressaltar que o sobrepeso também é encarado como sinal de má-nutrição e deve ser motivo de preocupação. O fato é que a desigualdade monetária é gritante quando se faz o recorte de raça: 66,4% das crianças que vivem em lares com renda per capita de até ¼ do salário-mínimo são negras e apenas 22,2%, brancas.

Com quatro filhos, entre 11 meses e 9 anos, Isabela Jenifer só consegue garantir aos filhos um “lanchinho” ou alguma coisa de diferente do arroz, feijão e macarrão, às quartas-feiras, na distribuição de alimentos do Projeto União Solidária. "Com o auxílio do cartão Arariboia, consigo comprar o pesado: uns 10 kg de arroz, 5 kg de feijão e umas 4 latas de óleo. Além disso, no máximo, compro uma salsicha. O restante não consigo, estou desempregada”, conta. “Até a fruta é difícil. De diferente, eles só comem aqui mesmo, eles adoram quando a ONG traz Nescau", conta Isabela, que é assistida pelo projeto União Solidária há mais de um ano, antes da gravidez do caçula.

No colégio, os filhos de Isabela têm o almoço garantido. Mesmo com essa refeição, a moradora do Morro do 94 lamenta que não seja o suficiente e tenta alternativas para garantir comida no prato das crianças. "Estou na lista de espera da cesta básica de uma igreja católica. Às vezes, consigo pegar doação de leite em uma creche”, diz Isabela, que também não tem dinheiro para comprar fraldas . “Dobro uma roupinha limpinha e faço de fraldinha. Depois lavo para usar de novo”, afirmou enquanto aguardava o achocolatado que serviria às crianças no dia seguinte.

Isabela estudou em um colégio público onde viveu uma realidade parecida com a dos seus filhos atualmente. Durante a infância e adolescência, ela foi aluna da escola estadual localizada no mesmo bairro em que mora, em São Domingos, Niterói. Desde quando passou pelo “Brizolão”, como era apelidado, um funcionário, que atua como inspetor até os dias de hoje, marcou as memórias de Isabela. Há 30 anos como funcionário público estadual, Izauro Ferreira, de 60 anos, também tem cada criança registrada nas lembranças. Sempre que pode, ele permite que um ex-aluno faça uma refeição no colégio ou até mesmo paga um lanche para eles.

"Fico feliz quando vejo eles já adultos e sei que pelo menos estão bem, estão com vida e tentando sobreviver de forma honesta. É impossível não se envolver, eu já voltei para casa chorando várias vezes. Dói ver eles passarem dificuldade, mas me dói mais lembrar dos que não estão mais aqui porque acabaram buscando alternativas que custaram a vida deles ou fizeram com que fossem presos”, lamenta Izauro. O funcionário ficou emocionado ao saber que Isabela, 15 anos depois de ter deixado a escola, ainda se lembrava dele. Disse estar na torcida para que os “pequenos tenham puxado a simpatia da mãe”.

Os programas de transferência de renda nem sempre são suficientes para reduzir a pobreza. E os dados revelam que a situação se agravou entre 2020 e 2022. Hoje, são 13,4% de crianças de até 14 anos abaixo da linha de extrema pobreza. O percentual estava em 8,9% em 2020.

Nos locais onde há ausência de políticas públicas, o suporte vem de organizações da sociedade civil como igrejas, associação de moradores e parentes. Esse quadro se reflete diretamente no desenvolvimento da criança, pois, caso ela não tenha o que comer, consequentemente não vai haver estímulos para um aprendizado pleno.

A assistente social Nádia Barbosa, da Sala Lilás – núcleo de atendimento especializado e humanizado voltado para mulheres, crianças e adolescentes vítimas de violência física e sexual –, hoje está do lado de quem ajuda. Mas ela já esteve do lado de quem precisou dela. Na infância, morava em uma comunidade chamada Reta, em Itaboraí, a 35 km de Niterói, e sua família dependia dessa rede de apoio.

“As famílias acabam recorrendo a essa outra rede. Muitas pessoas pegam cesta básica em igrejas e associações de moradores”, diz Nádia. “Eu cresci na Reta, eu falo de um lugar não só de atuação, mas de vivência mesmo. Eu cresci e vivenciei muitas coisas e utilizei muito as políticas públicas e as redes de apoio”, conta. “Acho que até por isso escolhi a profissão de assistente social”, afirma. “Esse suporte de organizações da sociedade civil, igrejas e família acaba complementando a atuação do Estado, principalmente em áreas em que ele não consegue chegar”.

Crianças recebem marmitas em Niterói (RJ): fome quase dobrou em lares com famílias com filhos até 10 anos de idade (Foto: ONG União Solidária / Facebook)
Crianças recebem marmitas em Niterói (RJ): fome quase dobrou em lares com famílias com filhos até 10 anos de idade. Foto: ONG União Solidária / Facebook

Consequências para a vida inteira

Professora de Nutrição da Universidade Federal Fluminense (UFF), Enilce de Oliveira Sally alerta para as consequências da falta de nutrientes essenciais na primeira infância. “Os dois primeiros anos de vida são a fase em que o desenvolvimento cerebral está no seu ápice. E para o cérebro crescer e organizar o crescimento da criança ele precisa de nutrientes importantes. Todo o seu funcionamento pode ser afetado na ausência deles”, sustenta. “Isso gera consequências cognitivas de longo prazo, na atenção, na curiosidade, na motivação, na saúde emocional e em vários outros aspectos”.

A nutricionista lembrou que, durante a pandemia, quando as crianças não puderam ir à escola, muitas se viram afastadas da principal fonte de nutrientes do dia. “Niterói chegou a disponibilizar um cartão através do qual a família ficaria incumbida de comprar alimentação. Mesmo assim, a insegurança alimentar aumentou significativamente durante a crise sanitária, pois nada é mais garantido que o prato na escola”, disse.

Ela lembrou que a refeição escolar é feita para ser saudável, com restrições a alimentos ultraprocessados. “O almoço nas escolas públicas segue as diretrizes do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), que institui uma alimentação balanceada. Não dá para garantir isso fora da escola”, alertou.

Entre as políticas públicas que contribuem para melhorar esse cenário, a pesquisadora destacou a campanha Todos pela Amamentação, que conscientiza mães sobre a importância do leite materno como única fonte de alimentos para os bebês até os seis meses de vida, sem a utilização de fórmulas lácteas. Ela destaca também a oferta de suplementação de ferro nas unidades do SUS como outra forma bem-sucedida de combater a insegurança alimentar.

Outra política voltada à alimentação são os restaurantes populares, que oferecem refeições completas a preços simbólicos. “Mas existe uma regra de segurança que não permite que crianças e adolescentes não acompanhados entrem nesses estabelecimentos. É preciso pensar em formas de contornar esse problema, pois ali, às vezes por R$1,00, a criança vai ter uma alimentação completa e balanceada”, aponta Sally.

Um levantamento do Laboratório de Avaliação Nutricional de Populações do Departamento de Nutrição da Universidade de São Paulo (Lanpop/USP) ressalta que uma sociedade saudável deve ter apenas 1% de crianças com baixa estatura. Em 2021, o Brasil alcançou 5,3% de crianças com uma altura considerada muito baixa.

Os dados e relatos mostram que o combate à fome e à pobreza na infância passam pela discussão de questões como a desigualdade social e o racismo, problemas estruturais da sociedade brasileira que se refletem diretamente na vida de pessoas como Tayara e Isabela, entre muitas outras. Para além de trazer esses problemas para o debate e cobrar políticas públicas de apoio à população em situação de vulnerabilidade social, também é possível realizar doações para projetos como o União Solidária, que aceita contribuições como roupas, cobertores, comida e dinheiro. Para saber mais, entre em contato com o número (21) 99781-7001.

* Jornalismo UFF é formado pelos alunos da turma de Oficina de Webjornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). Produzimos reportagens sob a coordenação da professora e jornalista Adriana Barsotti.

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